— Pat, você quer carona? Vou fazer mercado, é caminho pra sua faculdade — eu ofereci no final do expediente a uma colega muito querida.
— Que bom! Claro que eu quero, um ônibus a menos — ela respondeu, sorrindo.
Tínhamos muitas afinidades, Pat e eu, a despeito da diferença de idade entre nós. Ela estava estudando para se tornar Psicóloga Clínica como eu, trabalhava durante o dia e frequentava o curso noturno. Era uma rotina puxada, ela almoçava e jantava na repartição.
Pat sentou-se ao meu lado no carro e se acomodou, cheia de volumes: livros, cadernos, bolsa… Colocou a minha bolsa em seu colo e seguimos conversando, como de hábito.
Eu estava cansada, mas precisava comprar alimentos e já estava imaginando a que horas iria conseguir chegar em casa para relaxar.
Deixei-a na porta da faculdade, nos despedimos e eu segui. O supermercado não estava tão cheio quanto eu esperava, felizmente. Comprei o que eu precisava o mais rápido possível e entrei na fila para pagar.
– Dinheiro ou cartão? – perguntou-me a funcionária do caixa, quando chegou a minha vez. Não costumo andar com dinheiro em espécie e naquele dia tinha apenas alguns trocados na bolsa.
— Cartão – respondi.
A moça, ágil, registrou minhas compras rapidamente. Abri a bolsa para pegar meu cartão de crédito. Tudo o que eu queria era acabar logo, ir para casa, tomar um banho morno e jantar na frente da televisão. Bem, não foi assim que aconteceu.
Ao abrir a bolsa, me deparei com um cenário desconhecido e demorei de processar o que estava vendo: duas vasilhas plásticas vazias, talheres num saco plástico transparente, artigos de maquiagem que não eram meus e mais outras miudezas. O mais chocante foi o celular, eu nunca o tinha visto antes.
Enquanto eu tentava entender aquilo, a moça do caixa olhava com um ar interrogativo para meu rosto e para a fila que se formava atrás de mim.
Pat! A explicação atingiu minha mente como um raio! Era a bolsa de minha colega! Mas parecia a minha bolsa! Balbuciei algumas desculpas constrangidas e recebi em troca um olhar aborrecido, enquanto a funcionária gritava:
— Gerente, caixa três!
Parecia que o mundo inteiro estava me observando naquele momento. Olhares de pena, de impaciência, de irritação… Eu procurei um buraco onde pudesse entrar e me esconder, mas não tinha.
Não havia o que fazer. Eu não tinha como pagar por aquelas compras. Todos os itens foram retirados do carrinho por um funcionário atarefado, visivelmente insatisfeito, que precisaria devolvê-los às prateleiras ou à geladeira. Saí do mercado de mãos abanando, levando apenas uma bolsa que não era a minha.
Entrei no carro e peguei o celular de Pat. Ao menos, não estava bloqueado. Busquei na agenda o meu próprio nome e liguei. Ela atendeu na hora, tinha acabado de descobrir o engano e me contou. Tinha saído da sala para ir ao bebedouro, precisava tomar um remédio naquele horário. Mas ao pegar a bolsa, surpreendeu-se ao ver um cordão roxo pendurado para fora. Abriu-a para entender o que era aquilo. Era o cordão que eu usava preso ao meu celular para encontrá-lo facilmente dentro da bolsa. Ela teve a mesma surpresa que eu tive. Junto com o celular, estavam muitas coisas que Pat não reconheceu. Somente nesse momento, ela percebeu: nossas bolsas eram praticamente iguais!
Dirigi de volta até a faculdade, enquanto os ponteiros do relógio corriam. Pat já estava me esperando na entrada e destrocamos as bolsas. Ela se desmanchou em desculpas e prometeu ter mais cuidado quando andasse comigo. É claro que não voltei ao supermercado naquela noite, estava tarde e eu estava ainda mais cansada. Fui para casa, comi o que tinha e me dei por satisfeita.
Muitas vezes, somos forçados a mudar os planos, os imprevistos acontecem com certa frequência nesse mundo que não controlamos. Espernear e resmungar não resolve. Mais prático é tentar descobrir se há uma solução viável e tentar resolver. Se não for possível, podemos respirar e aceitar, evitaremos um estresse maior e preservaremos nossa saúde mental.
