O namorado morava em uma cidade vizinha, a mesma onde residiam seus avós. Ela viajava e se hospedava na casa deles todos os finais de semana. Nos sábados à noite, saía com seu amor e curtia as baladas até altas horas, fora do alcance da vigilância severa do pai.
Os avós entoavam a recomendação de sempre: “não volte tarde!” Ela concordava com a cabeça, os abraçava e pulava para dentro do carro que a esperava à porta. Ao chegar, já madrugada, a casa em silêncio, ela tomava um banho rápido e caía nos braços de Morfeu.
Os avós, bem idosos, costumavam se levantar tarde e nunca viam a hora em que ela chegava. Quando eles percebiam sua ausência no café da manhã, concluíam que ela iria dormir até mais tarde por ser domingo.
Um dia, após uma noite inteira de curtição, o céu já claro anunciando uma nova manhã, ela chegou. Usando sua chave, abriu a porta e entrou pisando mansinho. Ao se virar para trancar a porta novamente, ouviu num sobressalto a voz do avô:
— Isso são horas, mocinha? — o tom era severo.
Mesmo cansada e com sono, a inspiração lhe acudiu. A mão que ia na maçaneta puxou-a de volta e explicou:
— Não, Vô, estou saindo pra fazer uma visita!
Ela saiu para a rua quase deserta e procurou um banco na praça mais próxima. Estava exausta. Espichou-se no cimento duro do banco, ajeitando o vestido justo de lamê que usara na boate, na véspera e cobriu o rosto com sua minúscula bolsinha de festa. O sol estava quente.
Voltou para a casa dos avós horas depois, a tempo de tomar o café da manhã com eles. A avó observou:
— Você está com a carinha de cansada, acordou muito cedo hoje.
— É, Vó, acho que é melhor eu dormir mais um pouquinho…
