Eu tinha dez anos. Ela era minha pequena companheira, e eu a amava. Era cor de mel, e nas extremidades — focinho, patas e cauda — seu pelo era branquinho. Eu escolhi para ela o nome Faísca.
Era criada solta naquela rua descalça e tranquila da minha infância, onde brincávamos à vontade. Um dia, recebi uma notícia que nunca vou esquecer. Faísca tinha morrido atropelada enquanto tentava atravessar uma pista asfaltada, um pouco distante da minha casa, acompanhando outros cachorros. Meu mundo se esfacelou com aquele choque. Eu me lembro bem de meu pai prometendo comprar para mim outro cachorrinho, mas aquilo não adiantava, eu estava inconsolável. Creio que foi a minha primeira experiência de luto, mas naturalmente não foi a única.
Em sentido amplo, o luto é uma resposta física e psicológica à perda de um vínculo importante. Mudanças significativas, encerramento de ciclos, diagnósticos de doenças graves, perda de entes queridos, alterações drásticas na rotina ou grandes frustrações, tudo que envolve perda acarreta o sentimento de luto.
A perda de pessoas queridas, em geral, traz uma dor intensa, gerando sentimentos com os quais é difícil lidar, muitas vezes contraditórios – raiva, desespero, medo do impacto da falta, alívio por ver cessado um sofrimento em caso de doença prolongada, e a culpa resultante. Tudo isso exige do enlutado um esforço imenso para se adaptar à ausência e para reorganizar sua vida.
Vários teóricos estudam o processo do luto, dividindo-o em fases ou em tarefas, na tentativa de compreender como se dá a elaboração da perda, que funciona como a cura da ferida psíquica causada pela morte de alguém significativo, mas a experiência de luto é diferente para cada pessoa.
No início, há a perplexidade acerca da morte, o choque e a dificuldade de aceitar a sua irreversibilidade. A aceitação se dá gradativamente e de forma não linear, podendo se alternar com momentos de negação. Quando a aceitação acontece, é preciso encarar o sofrimento pela ausência e o sofrimento resultante pode parecer intolerável, com dificuldade de adaptar o ambiente – agora vazio — à vida sem aquele que se foi. Datas significativas poderão fazer a dor voltar de forma intensa porque constituem marcos da convivência anterior.
A recuperação psicológica da pessoa enlutada pode demorar mais ou menos tempo, a depender de diversos fatores: a representação da morte na sociedade em que ela vive, a proximidade do relacionamento, o tipo de morte — súbita, violenta, ou após um longo processo de adoecimento — a idade de quem se foi e a idade do enlutado, e ainda, o acesso a uma rede de apoio social. Algumas pessoas conseguem, em menos tempo, se recuperar e reposicionar emocionalmente na memória a figura da pessoa ausente; outras, passam a sofrer de ansiedade ou depressão e demoram a se reequilibrar.
A tentativa de evitar os sentimentos dolorosos pode provocar sintomas penosos e transformar o luto em um processo patológico, mais prolongado e mais difícil de ser superado. Nesses casos, a ajuda profissional de um médico psiquiatra ou acompanhamento psicológico podem ser necessários. Poder falar sobre os próprios sentimentos e se sentir acolhido por pessoas próximas, que compartilhem da mesma dor é um recurso importante na recuperação da pessoa em luto. Essa recuperação pode ser constatada quando o enlutado consegue se engajar nas atividades de antes, descobrir novos interesses ou cultivar novos relacionamentos, e falar sobre a pessoa falecida com serenidade.
A vida humana é caracterizada por tristezas e alegrias, e a capacidade de adaptação a mudanças, a novas realidades têm um custo, exigem esforço, mas podem preservar a nossa sanidade física e mental.
