Quando eu comecei a “me entender por gente”, naturalmente, achava a velhice algo muito distante da minha realidade. Os avós eram seres diferentes, tinham cabelos branquinhos, pele fininha e enrugada e sempre usavam óculos. Eles também se movimentavam devagar e gostavam de contar muitas histórias do passado.
À medida que o tempo foi passando, comecei a compreender que um dia eu seria como eles. Mas passei um tempo bem ocupada, estudando para ter uma profissão, depois criando meus filhos, cuidando da casa e pagando contas e esqueci o assunto por um tempo. Então meus avós se foram, lamentei sua partida e mais tarde vi meus pais se tornando parecidos com aqueles velhinhos, mais frágeis e lentos.
As folhas do calendário foram passando, e os meus pais também partiram. Vi meus filhos se tornarem adultos e começarem a viver uma vida como a minha, cheia de obrigações e responsabilidades. Eu ainda estava atarefada e sem tempo para me preocupar com a passagem dos janeiros.
E então, enquanto os ponteiros do relógio continuavam sua dança, e eu precisava de mais velinhas a cada bolo de aniversário, recebi o título oficial de avó, um verdadeiro presente, que me foi concedido seis vezes. Agora me dizem que eu sou da turma da terceira idade; eu nem pretendia entrar nesse clube, mas parece que é obrigatório.
Percebi que o espelho e os meus óculos se uniram em um complô organizado contra mim. Agora eles vivem a me atirar desaforos, apontando as mudanças no meu corpo que vão me assemelhando aos velhinhos da minha infância. Geralmente os ignoro ou devolvo os insultos com um “ora, estou ocupada, me deixem”. Estou concentrada em meus compromissos: a academia, meus estudos, meus pacientes e minha nova atividade de escritora. Também preciso ir ao salão pintar o cabelo, cuidar das unhas e me arrumar para ir dançar ou namorar.
Não estou com tempo livre para envelhecer agora, pretendo adiar, porque ainda gosto de descer escadas aos pulos, de correr na praia, de inventar novos projetos e de abraçar com força as pessoas que amo. Peço que me avisem quando chegar o momento inadiável de me tornar uma “velhinha” para que eu possa me comportar de acordo. Antes não, façam-me o favor!
