Aos onze anos, fui estudar num colégio particular mantido e administrado por freiras da Ordem Franciscana, para cursar o período chamado, naquela época, de ginásio. Como a maioria das escolas, a instituição participava do desfile em comemoração à independência do país, em 7 de Setembro.
Os alunos eram dispostos em colunas e fileiras por ordem de tamanho, do maior para o menor e marchavam ao som da banda de música, colocada à frente do colégio.
Eram muitos alunos e aqueles que ficavam atrás, bem no final, sofriam de várias maneiras. Atrapalhavam-se no ritmo da marcha porque os sons dos instrumentos tocados pela banda do próprio colégio lá na frente se confundiam com aqueles do colégio que vinha depois. Além de se perderem no ritmo dos passos, se tornavam alvos de chacota, ouvindo gritos de “rabada!”, por estarem posicionados no finzinho da formação.
Eu sempre fui do tipo “mignon” e naquela idade, era um “belisco de gente”. Desfilei no penúltimo lugar da última coluna. Atrás de mim havia apenas um menina, ainda menor do que eu. Naquele tempo, a expressão “bullying” ainda não havia se popularizado, mas o fenômeno existia e eu odiei aquilo com todas as minhas forças. Quando cheguei em casa, já havia decidido: não desfilo mais na rabada!
Bolei um plano e no ano seguinte o coloquei em prática: quando chegou o momento dos ensaios para o próximo desfile, eu me candidatei a tocar na banda. Se tivesse que ficar no final, ao menos seria no primeiro pelotão.
Então, aos doze anos, usando o uniforme de gala bordado com o brasão do colégio, chapéu e dragonas nos ombros, desfilei tocando pratos atrás dos tocadores de bumbos, de caixas, de surdos e dos tambores de marcação. A experiência me agradou muito e nos dois anos seguintes, passei a tocar o tambor de marcação e avancei um pouco mais na fila.
Mas eu queria mais. Do quarto ano em diante, passei a tocar caixa, o menor tambor de todos, responsável por marcar o compasso, conduzindo e “preenchendo” o ritmo. As caixas são posicionadas logo atrás dos bumbos. Quem toca caixa, toca o tempo todo e tem que estar bastante atento, mas eu estava feliz, em terceiro lugar de toda a escola!
Ao final do desfile, os membros da banda não se dispersavam na rua como os demais alunos. Nós retornávamos ao colégio para devolver os instrumentos. Em seguida, saboreávamos um lanche oferecido pela escola e só então estávamos liberados. Voltávamos para casa usando ainda os talabartes e levando as baquetas nas mãos – em nossa região as chamávamos de cambitos — com a responsabilidade de entregá-los na escola no próximo dia útil.
Lembro-me bem da gloriosa sensação que eu tinha ao retornar para casa naquele belo uniforme, portando aquelas peças. Era como se eu ainda estivesse desfilando e mostrando minha importância: eu toco na banda!
Eu não cresci muito depois disso, mas nunca mais precisei ouvir os gritos de “rabada!”
