Ele tinha as mãos grandes, combinando com a sua estatura e seu porte, e as minhas mãos pequeninas se perdiam dentro delas sempre que ele brincava comigo. Para mim eram como mãos de gigante. Somente muito depois, entendi que gigante era a alma daquele homem, meu avô.
Era um cearense que veio do Crato e construiu sua vida na Bahia a partir do nada, graças à disposição para o trabalho e à persistência que sempre o caracterizou. Casou-se com uma baiana e construiu uma família numerosa, que abrigou numa casa grande que ele mandou edificar num terreno próximo à praia.
Para nós, os netos, ainda na infância, a casa dos meus avós era o paraíso na Terra. Meus pais, meus irmãos e eu nos deslocávamos da cidade próxima onde morávamos para passar lá quase todos os finais de semana. Naquela casa cercada de amor, meu avô era a atração principal, embora fôssemos envolvidos de muito carinho por todos os familiares. Desfrutávamos da companhia dos primos, em brincadeiras no quintal, subíamos em árvores para comer goiabas colhidas na hora e brincávamos de esconde-esconde e de cabo de guerra, meninos contra meninas.
O almoço, invariavelmente delicioso e acompanhado de uma sobremesa caprichada era servido na varanda, sobre uma enorme mesa quadrada, onde permanecíamos por horas após a refeição, ouvindo, quase sem piscar os olhos, os “causos” engraçados ou histórias de “assombração” contadas pelo chefe da família. Ele tinha o dom de nos entreter, promover “concursos”, em que éramos desafiados a contar histórias sem dizer a palavra “aí”, a fazer “de cabeça” operações matemáticas com a prova dos nove e a contar piadas.
Ao final, ele distribuía guloseimas – chocolates ou bombons – que nos oferecia, driblando-as em suas mãos grandes. A tarefa de pegá-las era difícil porque precisávamos usar apenas uma das mãos, era a regra. Tenho vívida na minha memória a sensação macia de sua pele enquanto eu tentava alcançar meu saboroso prêmio.
Ele era meu padrinho e isso sempre foi motivo de orgulho para mim; eu sentia que tínhamos um relacionamento especial. Mas meu avô era puro amor com todos os membros da família. Minha mãe me contava como ele era como pai: não só participava ativamente de brincadeiras diversas com os filhos, ele as inventava. Comprava os materiais necessários e se dedicava a encantar as crianças, mesmo tendo uma jornada de trabalho a cumprir, atividade que desempenhava com zelo e honestidade. A minha avó sempre podia contar com ele para fazer qualquer tipo de compra, as mercadorias que ele trazia sempre chegavam exatamente como ela as tinha encomendado.
Ele tinha em casa um gabinete com três paredes cobertas por estantes até o teto, cujas portas em madeira e vidro permitiam ver os preciosos volumes, mantidos com zelo e orgulho. Era o meu espaço sagrado nas tardes de domingo, um portal mágico para outros mundos. Aninhada num sofá antigo, na semiobscuridade de cortinas fechadas, e sob os protestos de minha mãe que anunciava que eu ia estragar minha vista, eu me perdia e me encontrava naquelas páginas, algumas amarelas e cheias de furinhos deixados pelas traças. Esse era o universo onde meu avô me incentivava a entrar, compartilhando comigo os seus tesouros.
Era assim esse homem especial, que doava carinho e amor com suas generosas mãos. Ele nasceu no finalzinho do século XIX, viveu por quase cem anos e sua presença ecoa de forma indelével em minhas lembranças, enchendo o meu coração de gratidão!
