Ah, o Amor… Está entremeado em nossa convivência com nossos semelhantes, na família, nos círculos de amizades… Não é que falte o Amor. Ele existe. Existe na forma que somos capazes de perceber os sentimentos. Somos seres imperfeitos e é desse modo que o sentimos, imperfeitamente. Costumamos achar que o Amor está em falta, mas isso ocorre porque nós o idealizamos. Consideramos que ele deveria ser altruísta, superior, incondicional. Mas como seria possível para nós senti-lo assim, seres de um mundo ainda em evolução? É preciso que nos contentemos com o amor que o Outro consegue sentir e que consegue nos oferecer.
O Amor que sentimos, aquele que flui de nós para o Outro nos gratifica, nos preenche. E o Amor que o Outro sente e que nos direciona só adquire significado para nós quando o percebemos, quando o Outro demonstra esse sentimento. E aí temos outro problema: a expressão do Amor. Cada um de nós aprendeu um jeito de expressar seus sentimentos, um jeito que nem sempre fica claro para as pessoas ao nosso redor. Às vezes, o Amor precisa de tradução. Todos concordamos que as palavras, embora sejam agradáveis de ouvir, não dão conta de conduzir o Amor até onde ele precisa chegar. Concordamos que as atitudes, sim, são a maneira efetiva de sua expressão. Mas, e se aprendemos a demonstrá-lo por atitudes diferentes?
Vejam essa historinha:
Joãozinho e Mariazinha cresceram em famílias diferentes. Ambos eram amados por seus respectivos pais. Quando Joãozinho chegava da escola, aborrecido ou frustrado com os coleguinhas, a mãe o recebia e percebendo seu semblante retraído, ela respeitava o seu silêncio e o deixava quieto, porque foi assim que ela havia aprendido a amar. Ele ia para o quarto, onde ficava longas horas sem que ninguém o incomodasse, até se acalmar e voltar a se reunir à família. Quando Mariazinha chegava da escola, contrariada ou chorosa, sua mãe a punha no colo, perguntava-lhe o que tinha acontecido e a ouvia pacientemente, abraçando-a, porque foi assim que ela havia aprendido a amar.
Eles cresceram e se encontraram. Eles se casaram, João e Maria, por amor. Um dia, quando João chegou do trabalho, visivelmente zangado, Maria demonstrou seu carinho perguntando-lhe o que ocorrera. Ele não quis contar, embora ela insistisse. Ela o seguiu até o quarto, argumentando que eram um casal e que precisavam dividir seus sentimentos. João se sentiu invadido e eles brigaram.
Em outro dia, Maria teve um problema no trabalho e chegou em casa bastante triste. Ela esperava que João fosse acalmá-la e abraçá-la como havia se acostumado na infância. João respeitou sua privacidade e nada perguntou. Maria foi para o quarto e esperou em vão que João fosse consolá-la. Ele ficou onde estava e esperou. Ela não se sentiu amada e eles brigaram.
Os códigos de expressão do amor são diferentes e é preciso ler nas entrelinhas da convivência diária. Reconhecer o que é o Amor do Outro e seu jeito de demonstrar, saber distinguir a dificuldade de expressá-lo da falta de sentimento, ou de outros sentimentos que se disfarçam de Amor são tarefas complexas. Precisamos entender que somos seres influenciados por múltiplos fatores e que o Amor não é linear. Não temos como avaliar os sentimentos do Outro por um único momento. Às vezes o canal de expressão fica “entupido”, o Amor está ali, mas não conseguimos dizê-lo, por insegurança, por medo de não sermos retribuídos.
Estamos todos aprendendo e a nossa capacidade de amar pode evoluir junto conosco permitindo que sejamos mais felizes em nossos relacionamentos.
