INCÊNDIO PROVOCADO

Eu admirava muito os cabelos de Mirna, minha vizinha e amiga. Além de serem volumosos e cheios de cachinhos, tinham uma cor maravilhosa, com tons dourados que o sol realçava. Um dia, elogiei sua cabeleira, e ela me contou o segredo:

— Eu uso Biondina. Basta você aplicar uma vez por semana nos cabelos lavados e eles vão clareando aos poucos. Quando chegar na cor que você quer, você para de usar.

No dia seguinte, fui à farmácia e comprei o produto. Apliquei nos meus cabelos, que na época chegavam à altura dos ombros e esperei. Nada aconteceu naquela semana, nem na próxima. Continuei usando, porém foi necessário mais de um mês para que eu notasse um pequeno efeito, muito discreto. Era um processo muito lento e eu estava impaciente para exibir uma cabeleira cor de mel.

Naquele domingo, decidi turbinar a aplicação para chegar mais rápido ao resultado esperado. Estávamos em uma casa de praia e havíamos sido convidados para um almoço de aniversário na casa de um amigo do condomínio. Era cedo ainda e estava um dia lindo. Resolvi levar meu filho caçula para fazer castelos de areia à beira-mar. Antes de sairmos, apliquei uma quantidade maior de Biondina nos cabelos, deixando as madeixas bem molhadas, e fomos.

Lá ficamos um bom tempo, sentados na areia, entretidos com nossas obras de arte. Em certo momento, vi um amigo se aproximar e me levantei para cumprimentá-lo, mas ele passou direto por mim e foi se afastando. Eu o chamei:

— Carlos!

Ele se virou para trás, olhou em minha direção enquanto eu acenava, mas não pareceu me reconhecer. Eu insisti:

— E aí, tudo bem? Nunca mais te vi.

Ele veio se aproximando, parecendo confuso:

— Lílian! – ele exclamou — Desculpe, nem te reconheci, você está diferente!

Nós nos abraçamos, enquanto eu perguntava:

— Diferente, como? Mais feia ou mais bonita? — eu brinquei.

— Seu cabelo… tá bem louro…

Alguma coisa no tom de suas palavras me deixou preocupada. Despedi-me rapidamente de Carlos, peguei meu pequeno e fomos para a casa dos amigos onde haveria o almoço. A casa estava cheia de convidados, muitas pessoas que eu não conhecia. Eu os cumprimentei de longe e fui direto ao banheiro. Olhei–me no espelho. O que eu vi é difícil de descrever. As mechas de meu cabelo projetavam-se como línguas de fogo ao redor da minha cabeça. Eu parecia um incêndio ambulante. Chocada, enfiei a cabeça no chuveiro e ensopei os cabelos, que voltaram a ser escuros. Fui para a varanda onde todos estavam se servindo e comecei a almoçar.

Algum tempo depois, comentários de pessoas da minha família sobre meu novo “look” me fizeram voltar ao banheiro. Para meu horror, percebi no espelho que os fios de cabelo que secavam adquiriam novamente a cor de fogo aceso. Passei o tempo reservado ao almoço em muitas idas ao banheiro para extinguir o fogaréu.

Quando voltei para minha própria casa, procurei a caixa de Biondina e li o rótulo: “clareador termoativado…”, “clareamento ativado pela exposição ao sol…”, “…o uso deve ser gradual, com intervalo de 15 dias…” Céus! O que foi que eu fiz?

Minha aparência estava surreal e ninguém me faria sair à rua assim. Na segunda-feira bem cedo, acordei meu cabeleireiro e supliquei que me socorresse. Ele me atendeu em casa e tingiu meus cabelos de castanho, vários tons mais escuros que o meu natural. Por um bom tempo, precisei pintá-los com frequência e usar um shampoo especial até que os fios crescessem e a cor original voltasse a aparecer.

 Passado tanto tempo, o trauma persiste. E se no salão me perguntam: “você quer fazer luzes, clarear um pouco?” ; eu me levanto da cadeira e saio correndo! 

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