Eu tinha em torno de sete anos e amava ler meus livros de histórias. Em sua maioria, eram coleções de contos de fada, que minha mãe comprava para mim, sabendo do meu fascínio pela leitura.
Quando meus pais saíam à noite, meus irmãos menores e eu ficávamos com uma babá, encarregada de nos colocar na cama no horário determinado por minha mãe.
Uma das minhas histórias favoritas era “O soldadinho de chumbo”, escrita por Hans Christian Andersen. Eu ficava encantada com todos aqueles brinquedos ganhando vida no meio da noite. Entre eles havia um palhaço de mola e as ilustrações em cores vivas o mostravam usando um chapéu pontudo e uma gola com pequenos quizos de metal nas pontas. Segundo a narrativa, esses guizos faziam barulho em todas as vezes que o palhaço de mola saltava da caixa para assustar o soldadinho.
A nossa babá, por razões que só vim a entender depois, para se ver livre mais cedo do trabalho de cuidar de nós, ficava especialmente irritada comigo porque eu sempre queria ler mais um pouco e invariavelmente era a última a deitar para dormir. Em uma noite, ela me disse que aquele palhaço era malvado, e que se eu não fosse logo para a cama, ele viria me pegar para fazer comigo coisas horripilantes. Muito impressionada, eu tratei de obedecer e fui deitar assustada, com os olhos bem fechados, pensando no palhaço com a gola de guizos.
A partir daí, despertei em muitas madrugadas, ouvindo nitidamente o barulho dos guizos que indicavam que o palhaço estava se aproximando para me pegar. Nessas ocasiões, eu ficava paralisada de medo, sem conseguir sequer me levantar e correr para o quarto dos meus pais. Demorava muito tempo acordada, até cair no sono outra vez. Isso aconteceu por muitas e muitas noites, e após um tempo, parou. Eu acreditei então que o palhaço havia finalmente decidido me poupar. Só muito depois, contei isso a minha mãe, que ficou furiosa com a babá. Felizmente, ela não estava mais trabalhando em nossa casa.
Quando eu me tornei mais velha, descobri enfim o mistério dos guizos cujo barulho me apavorava. A rua onde morávamos não era muito longe do rio que cortava a nossa cidade. Naquela época, as pessoas vendiam areia para construção, extraída do leito do rio, e a transportavam em latas presas ao lombo de um animal. Seu Ângelo, um velhinho pequeno e magro, vivia disso, e passava em nossa rua muito cedo, antes de o dia amanhecer. O seu jumentinho trazia no pescoço um grande guizo de metal que balançava quando ele se movia, produzindo um barulho que facilitava a seu dono o trabalho de localizá-lo quando ele se afastava.
O medo, que me custara tantas horas de sofrimento, ficou para trás, mas a sua lembrança gravou-se em minha memória até os dias de hoje.
