Minha mãe estendeu a toalha na areia em um cantinho sob a sombra de uma árvore e começou a tirar do cesto o que havia trazido para o nosso piquenique. Aquele programa era inusitado. Eu tinha seis anos e como meus dois irmãos mais novos, estava empolgadíssima.
Enquanto ajudávamos minha mãe a desembalar as delícias que ela havia preparado — suco, biscoitos, sanduíches e bolo — meu pai foi tomar banho de mar. A maré estava vazante e a areia se estendia até bem longe. Eu o observei caminhar por um tempo até entrar na água.
O céu estava de um azul perfeito e nós apreciávamos a brisa, sentadinhos nas bordas da toalha, aguardando meu pai para começar a comer. Um barulho indistinto ao longe foi se aproximando aos poucos, até que avistamos um grupo de pessoas cavalgando. Eram aproximadamente uns dez cavalos e vinham em velocidade, acompanhando o trecho de areia mais firme.
Enquanto olhávamos a cena com o interesse infantil pela novidade, um dos cavalos, montado por um menino muito jovem, desgarrou-se do grupo que seguia, mudou de rumo e veio em nossa direção. Minha mãe percebeu que o garoto assustado não conseguia controlar o animal, que se aproximava a galope rapidamente. Estavam vindo em nossa direção; naquela rota iriam passar exatamente sobre nós e o resultado seria trágico. Estávamos em uma emergência.
Minha mãe entrou em pânico, paralisada. Só o que conseguia fazer era gritar por meu pai. Meus irmãos eram muito pequenos para entender a gravidade do que estava acontecendo, mas eu me lembro bem do medo e da impotência que senti, compreendendo que meu pai estava longe demais para nos ouvir e para nos salvar.
O cavalo e seu inexperiente cavaleiro se aproximavam a cada instante e eu estava apavorada. Até hoje me impressiona o que aconteceu em seguida. Longe, na linha da água, meu pai ouviu os gritos de minha mãe, olhou em nossa direção e entendeu de imediato a situação. Era um homem nascido e criado em roça e sabia como lidar com animais. Meu pai tinha apenas um metro e sessenta de altura, mas suas pernas eram fortes, fruto do trabalho duro na área rural. Junto com a determinação que sempre o caracterizou, isso foi o bastante para que ele, distante como estava, vencesse o espaço que nos separava. A imagem gravada em minha memória é a de um herói com superpoderes para parar o tempo e para deter o perigo que nos ameaçava. Ele veio correndo na velocidade do vento e conseguiu chegar onde estávamos, segundos antes que fôssemos pisoteados. Quanto tudo parecia perdido, ele passou à frente do cavalo gritando: “Ôoaa…”. O animal reagiu de imediato, virou o pescoço para o outro lado e se desviou de nós.
De algum modo, conseguimos nos acalmar e desfrutar do passeio, depois que nos sentimos seguros. Décadas se passaram e ainda é nítida em mim a sensação de segurança que nos foi transmitida por meu pai, o herói da minha infância.
