FOME DE MUNDO

São dezessete horas de uma sexta feira ensolarada e hoje é o dia “D”, melhor dizendo, o dia ”Dez”. E eis que me vejo aqui, pisando esse chão que não é o meu, mas tomado de empréstimo a essa grande cidade onde estou agora, cuidando da minha saúde. Faz dez dias que me submeti a uma cirurgia e fui liberada pelo médico, não ainda para me exercitar na academia, mas para caminhar.

Camiseta, legging, e o imprescindível batom, me acomodo nos meus tênis saudosos de mim e ponho meu headphone. Dou a partida nos pés e sou logo acolhida pelo vento e pelo verde. O sol me recebe com sua luz filtrada pela folhagem abundante das árvores que cercam este lugar. O cimento rústico que reveste essa trilha se entortou ou rachou em vários trechos, empurrado pelas suas raízes, mas isso não tira a beleza do lugar, antes lhe confere um ar campestre, quase poético.

Sigo no ritmo da música e sinto minha energia habitual suprindo o meu corpo, saciado do descanso compulsório destes últimos dias. Enquanto caminho, eu quase danço, feliz de estar voltando á minha cadência natural.

Olho ao redor, o urbano aqui se mistura à natureza de forma perfeita. De um lado, edifícios residenciais de médio porte, refletindo a vida cotidiana das familias: adolescentes em grupos voltando da escola, com suas pesadas mochilas, rindo e conversando em voz alta, mães empurrando carrinhos com crianças de colo, e carros entrando e saindo dos estacionamentos. 

Do outro lado, lojas, restaurantes e bares. Vejo pessoas reunidas, algumas vindas diretamente do trabalho, acomodadas em mesas esparramadas pela grama, comendo e bebendo, brindando a mais um final de semana que se aproxima. Para mim, não é final, é começo. É início de outra etapa do convalescer, verbo que já conjuguei tantas vezes e que sempre enche meu coração de gratidão.

À medida que me aventuro em quadras e esquinas desconhecidas, busco pontos de referência para não me perder. Um posto de gasolina ali, um supermercado lá, um parquinho, uma estação de ginástica… Enquanto avanço, reflito sobre a benção que é poder me cuidar, manter a saúde deste corpo que visto e onde minha alma se compraz enquanto habita este planeta. Eu me sinto misturada com meus semelhantes, os que vejo, os que pressinto e os que levo no coração, esse território onde a geografia não existe, onde o perto e o longe se confundem.   

Saboreio os gostos desse mundo, respiro o amor que dou e o que recebo. Sinto fome de vida, tenho gula de existência. Sei que esta experiência é finita, mesmo a se desdobrar no Infinito que me cerca. Anseio desfrutar o que posso, enquanto meu ser perdura e quando um dia não puder mais me fartar do sabor desse percurso, quero lamber até o último bocado do que me foi oferecido nessa jornada.

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