O CONCURSO

Foi uma daquelas sequências de eventos que saem do controle e para as quais não existe preparação suficiente, a não ser que você seja daquelas pessoas que já decidiu, a priori, seguir sempre em frente em qualquer circunstância. Era o caso de Eva.

A data do concurso tão desejado estava se aproximando. Iria ser realizado em outro Estado, em uma cidade próxima à capital. Eva não costumava deixar nada ao acaso e havia se preparado com bastante antecedência. Há meses estava estudando e já comprara a passagem aérea que, em algumas horas, a deixaria no grande centro de onde tomaria um ônibus para chegar ao seu destino.

O concurso seria no domingo. Desde quinta feira, Eva estava com as malas prontas, fervilhando de ansiedade. Na sexta feira à tardinha, dirigiu-se ao aeroporto e embarcou no vôo noturno, cheia de entusiasmo.

Acomodou-se em seu assento, pronta para a aventura de viajar sozinha e de participar de algo tão importante para a sua carreira.

O avião demorava a decolar. Estavam todos a bordo e as portas já haviam se fechado. Os passageiros se interrogavam, inquietos, sobre o motivo do atraso. Ninguém explicava nada e iniciou-se um burburinho de reclamações dentro da aeronave. Finalmente, um comissário, usando o microfone, avisou que a viagem havia sido cancelada e que os passageiros seriam acomodados em outros voos. Em meio a protestos gerais, Eva desceu do avião e dirigiu-se ao guichê da empresa aérea, em fila com dezenas de outros passageiros insatisfeitos que reclamavam do cancelamento e reivindicavam seus direitos. 

Após uma longa espera, chegou a sua vez. O funcionário informou que ela poderia ser acomodada em um vôo que partiria dali a dois dias. Ela se estressou, aquilo não era solução. Não conseguiria chegar a tempo ao concurso. Eva orava e continha o choro. Após prometer a si mesma que processaria a companhia aérea, decidiu fazer a viagem de ônibus, embora fosse um longo percurso. Era o único jeito. 

Na rodoviária, comprou a passagem para a capital, com a partida marcada para as cinco horas da manhã. Não havia ônibus direto para o seu destino, teria que pegar outro transporte para a cidade onde se realizariam as provas. Paciência. Passou um tempo zanzando pelo terminal, arrastando sua mala, depois tentou descansar enroscada em uma cadeira, mas não conseguiu. 

O sábado amanheceu. Eva embarcou no ônibus e viajou durante muitas horas. Não conseguiu pregar o olho nem relaxar o corpo. As pernas formigavam, encolhidas naquele veículo sem conforto, com poltronas que não acomodavam sua altura. Em todas as paradas, ela aproveitava para se levantar, desdobrar o corpo e comer alguma coisa. Era uma hora da madrugada de domingo quando Eva desembarcou em um terminal rodoviário da capital.

 Arrastando sua mala com as forças que lhe restavam, comprou a passagem de ônibus para chegar à cidade vizinha a duas horas dali. Teria menos de cinco horas para recompor seu corpo moído e sua mente esgotada antes de chegar ao local das provas. 

Encontrou a pousada onde havia planejado o pernoite, tomou um banho demorado e largou-se na cama. O cansaço e a agitação mental eram tão grandes que até o sono receou se aproximar e ela deixou-se ficar ali, esperando se esgotarem mais algumas horas insones, enquanto seus pensamentos perambulavam a esmo.

O sol apareceu e esquentou. Eva se arrumou, tomou o café da manhã e chamou um táxi. Chegou ao local do concurso vinte minutos antes de fecharem os portões e entrou na fila. Quando chegou sua vez, apresentou seu documento de identidade e o protocolo da inscrição.

— Senhora, bom dia. Não é permitido usar óculos escuros durante as provas.

— Como?

— Óculos escuros. Não pode.

Seus óculos de sol tinham grau e ela não havia percebido que estava com eles. Abriu a bolsa à procura de seus óculos de leitura. Nada. O seu coração parou. Ela os tinha deixado no quarto da pousada. Ficou paralisada por alguns instantes.

— Senhora! A senhora vai entrar? A fila…

— Ahn? Sim.

Eva retirou e guardou seus óculos escuros e caminhou até a sala designada para ela e recebeu as provas. Começou pelas matérias que gostava mais, espremendo os olhos para conseguir ler os enunciados sem o auxilio dos óculos e parando para descansar quando sentia a cabeça doer. O processo era demorado e ela precisou usar toda a manhã. Quando soou o toque de encerramento, saiu, trôpega e exausta, direto para a pousada. Conseguira. E agora só queria dormir. Depois procuraria um lugar para almoçar. Depois pensaria na viagem de volta. Depois procuraria um advogado para orientá-la sobre os seus direitos. Depois.

                                             ***

Depois, passados dois meses, Eva leu o seu nome na lista dos aprovados.

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