Eu estava pretendendo escrever um texto sobre as dores invisíveis que os seres humanos carregam, com a intenção de tecer comentários sobre a necessidade da empatia entre nós, diante do sofrimento do Outro.
E eis que estou sendo obrigada a digitar esse texto somente com uma das mãos. Há alguns meses comecei a sentir uma dor no ombro direito, que no início era mansinha, mas que foi aos poucos se agravando, até se tornar muito forte. Eu estava protelando a visita ao médico, mas diante de uma crise recente, tive que consultar um profissional. O diagnóstico é um “combo”: um misto de três coisas com nomes tão esquisitos, que prefiro nem escrever aqui. Enfim, aqui estou eu, usando tipoia, com a recomendação de não movimentar o braço, até que os tratamentos – no plural – me permitam funcionar normalmente.
Do ponto de vista médico, algumas dores costumam ser classificadas como mais ou menos intensas, mas apesar de buscarmos um meio de entender a gravidade da dor de alguém, isso é algo difícil de avaliar. A dor, tanto a física quanto a emocional, é uma experiência subjetiva, pessoal. A célebre frase: “a pior dor do mundo é a minha, enquanto a estou sentindo” reflete uma verdade. Quando estamos sentindo dor, de qualquer tipo, a sensação ocupa a nossa consciência naquele momento, deixando pouco espaço para qualquer outra coisa além do nosso sofrimento.
Pensando bem, toda dor é invisível. O que vemos são os seus sinais externos, se forem aparentes, como lesões ou alterações observáveis, e a reação da pessoa que a está sentindo. Algumas pessoas se controlam nessa manifestação, outras demonstram abertamente o seu sofrimento. Existem limiares diferentes de percepção da dor e isso sofre influência das crenças que construímos ao longo das nossas experiências de vida, da interpretação que fazemos dos eventos adversos e do grau de ansiedade que resulta disso. Esses fatores influenciam a nossa experiência de dor, porque a sensação detectada pelos receptores espalhados pelo corpo é “traduzida” pelo nosso cérebro, que classifica a experiência sensorial como mais ou menos intensa, e isso interfere em nossa relação com a doença e com a dor.
Nesse momento, tenho opções: posso me ver como um passarinho de uma asa só, focando na minha limitação atual e catastrofizando sobre o prognóstico do meu problema, ou posso adotar as medidas práticas para melhorar e me concentrar na riqueza que será quando eu puder usar novamente os dois braços e funcionar plenamente. Todos os processos que ocorrem na máquina maravilhosa que é o nosso corpo, têm um ritmo próprio. Parece uma atitude sábia, portanto, administrar os nossos dodóis com uma paciência ativa: fazer o que se precisa fazer e esperar que o nosso aparato fisiológico se recupere, que a nossa saúde seja restaurada e os nossos sintomas se atenuem ou desapareçam.
Saúde para todos nós!
