UM POUCO DA HISTÓRIA QUE NUNCA CONTEI

Há pouco mais de duas décadas, passei por uma experiência muito sofrida que ainda não consegui contar. Mas venho refletindo sobre isso e criando coragem para esse relato, porque considero útil compartilhar uma parte especialmente difícil do que vivi. 

Após um acidente de carro, que provocou lesões importantes em várias partes do meu corpo, tendo sido classificada como paciente politraumatizada, fui submetida a diversas cirurgias e a reabilitação ao longo de dois anos. No início, o período mais crítico, eu sentia muitas dores, que não me deixavam dormir, a despeito dos fortes analgésicos que eu tomava. O chefe da equipe de médicos que me atendiam, vendo o meu sofrimento, prescreveu Nubain – cloridrato de nalbufina – potente analgésico opioide, equivalente à morfina, aplicado em casos de dor severa, e que envolve risco de abuso e de dependência. A administração intravenosa de Nubain tinha um efeito tão rápido que eu sequer tinha tempo para dizer que me sentia aliviada. Exausta como estava, eu adormecia de imediato, mas duas horas depois, eu acordava, novamente com dores terríveis. Isso me fazia solicitar continuamente às enfermeiras outra dose da medicação. Mesmo diante das minhas queixas constantes, elas sempre me negavam uma dose extra, seguindo à risca a prescrição do médico.

Em uma noite particularmente difícil, após muita insistência da minha parte, elas consultaram o plantonista, que me prescreveu a substância. O mesmo processo se seguiu: eu “apaguei” de imediato, para acordar duas horas depois, já em sofrimento, implorando por outra dose. Na troca de plantão, meu médico soube do ocorrido, e percebendo que o medicamento, que afeta o Sistema Nervoso Central, já estava me causando dependência, fez constar no meu prontuário a proibição expressa da administração do Nubain. A partir daquele dia, eu não receberia mais a substância, que foi substituída por um analgésico mais leve.

A essa altura, sob o tormento contínuo das dores, a necessidade que eu tinha da medicação era tão forte, que arquitetei um plano delirante para obtê-la.  Na minha mente perturbada, sua execução parecia simples e viável. Eu – que estava acamada num hospital – venderia meu carro – que estava a quinhentos quilômetros de distância – receberia o valor total em dinheiro, e colocaria toda essa quantia no bolso do jaleco de uma das enfermeiras para convencê-la a me aplicar mais uma única dose de Nubain.  Obviamente, essa ideia alucinada nunca se concretizou, e após passar um período bastante penoso, finalmente, as dores começaram a diminuir, bem como a necessidade daquela droga.

Algum tempo depois, livre das dores, eu voltei à razão, e fiquei tremendamente chocada com esses pensamentos. Eu que me julgava uma pessoa esclarecida e ética, que sempre cuidei da saúde, não bebia nem fumava, me percebi vulnerável como qualquer ser humano, a desenvolver um vício, e o mais chocante, engendrei um meio de subornar alguém para obter o que eu sentia que precisava. Pensei nas muitas pessoas que por motivos diversos se tornam dependentes de drogas ilícitas e que mudam seu comportamento para adquiri-las, subvertendo princípios e valores. O vício causa desespero em suas famílias e muitas vezes as pessoas dependentes de drogas são rotuladas e desprezadas pela sociedade. A adicção é uma doença que precisa ser tratada. A escolha ruim que a originou, ficou no passado. Instalado o vício, não é a mais a pessoa que escolhe. A dependência se apodera do adicto de uma forma cruel e domina a sua vontade e as suas intenções. A compaixão deve orientar o nosso olhar diante da dependência química e guiar as medidas, muitas vezes enérgicas, que devem ser tomadas para tratar o doente.

Meses depois, enquanto eu saía da sedação após outra cirurgia, senti muita dor. Ouvi quando o cirurgião, ao me ver gemendo, instruiu a enfermeira: `”Aplique um Nubain”. Um alarme tocou alto em minha mente me fazendo acordar por completo. Eu gritei: “Nubain não!”.  Ele me olhou espantado, sem entender, por não ter acompanhado minha trajetória até ali, mas mudou a prescrição, o que evitou que meu calvário recomeçasse. Desejo que essa narrativa provoque uma reflexão que possa contribuir para uma melhor compreensão sobre a dependência química e para a adoção de uma nova visão sobre a trajetória daqueles que se tornam dependentes.

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