Era só um pontinho. Um pontinho em preto e branco. Era quase invisível. Parecia difícil acreditar que algo tão pequeno tivesse o poder de mudar a sua vida completamente.
Telma suspirou, guardou o exame e começou a se arrumar para ir trabalhar, como fazia todas as manhãs. Mas aquela manhã não seria igual às outras. Parecia que todas as mulheres grávidas do planeta haviam resolvido cruzar o seu caminho. Ou talvez estivessem indo a uma reunião de grávidas para a qual ela não fora convidada. O fato é que ela nunca prestara atenção a esse mundo de fraldas, carrinhos e mamadeiras. Estava focada unicamente em sua carreira numa empresa multinacional, onde já recebera algumas promoções por dedicação.
Quando sua menstruação atrasou, a despeito de tomar regularmente contraceptivos, fez o exame de laboratório e o resultado foi inconclusivo. O médico insistiu numa ultrassonografia e ela obedeceu, com a ansiedade nas alturas. Agora, o laudo era claro: dentro dela havia outro ser sendo gestado! Como era possível? Quem o autorizou a entrar? Sempre havia sido tão cuidadosa. Saiu do consultório zonza. Ter filhos agora era impensável! A questão é que nesse momento, pensar não fazia a menor diferença. Aquele pontinho estava crescendo dentro dela e em pouco tempo a empurraria de dentro para fora, reivindicando espaço em seu ventre e em sua vida.
Telma não queria ser mãe. Não agora. Talvez nunca. Orgulhava-se de sua independência, conquistada com esforço e determinação. Orgulhava-se de ter construído seu ninho naquele apartamento quarto e sala, onde só cabia uma pessoa: ela. Costumava ter relacionamentos com homens, mas eram sempre casuais. Nunca desejou compromissos sérios. Gostava de sentir que podia controlar sua vida, sua carreira e sua rotina e se sentia confortável com suas escolhas. Até agora.
Telma decidiu interromper a gravidez. Não havia outra maneira de preservar tudo que tinha conquistado. Ela sabia que não seria fácil conviver com o resultado desta decisão. Tinha sido criada numa família cristã, conservadora, que abominava a simples ideia de um aborto, considerado um pecado grave, mas para ela, era melhor do que uma maternidade inoportuna e indesejada. Teria que carregar isso sozinha, ninguém precisava saber. Procurou na Internet contatos de clínicas ginecológicas, fez ligações e pediu informações sem se identificar, até encontrar uma que realizasse o procedimento, que ficou marcado para dali a duas semanas.
Ela entrou na sala, um pouco ansiosa. Por um lado, sentia-se estimulada ao pensar que sairia dali com aquele assunto resolvido, por outro, receava possíveis complicações médicas. O ambiente frio e esterilizado estava refletido na atitude dos profissionais que iriam atendê-la. Uma enfermeira de expressão sisuda deu-lhe instruções para se despir e vestir um roupão. Obedeceu e deitou-se na maca, enquanto a moça lhe colocou um acesso venoso e uma ampola de soro. Ela pensou na família. O que a mãe diria se soubesse o que estava prestes a fazer? Telma espantou os pensamentos. Aquilo era necessário, tinha que ser feito.
O médico entrou na sala. Seu semblante era igualmente sombrio. Ele se aproximou, prestes a iniciar a intervenção. De repente, uma crise de tosse tomou o corpo de Telma. Uma tosse convulsiva, difícil de controlar. Ela respirava e fechava a boca entre os acessos, tentando controlar os espasmos que sacudiam seu corpo, mas logo, tudo recomeçava. O médico aguardava, a impaciência estampada em seu rosto. A enfermeira aproximou-se e instruiu-a a prender a respiração por alguns segundos. Telma tentou. Os acessos continuavam, impedindo-a de ficar imóvel para realizar o procedimento. O tempo passava. Mas a tosse não. O médico saiu da sala, murmurando algo ininteligível. A enfermeira o seguiu, não sem antes lançar a Telma um olhar de aborrecimento.
Num instante de aguda lucidez, Telma compreendeu. Levantou-se, entre uma tosse e outra, se dirigiu ao vestiário, colocou sua própria roupa e saiu da clínica a passos rápidos, sem olhar para trás e sem falar com ninguém.
Quando entrou em casa, a crise de tosse havia cessado. Ela usou o resto do dia de folga e seus dons de planejamento para programar sua nova realidade e estabelecer as estratégias necessárias para adaptar-se à rotina que assumiria em breve. Havia muito a fazer para acolher o morador que chegaria dali a nove meses, aquele com quem iria estabelecer seu primeiro relacionamento sério, um compromisso para a vida inteira.

