RODOLFO E EU

Nós nos conhecemos na Feira de São Joaquim, em Salvador, e logo me apaixonei. Ele morou na minha casa por um tempo, e eu nunca o esqueci. Naquela época, eu passava o dia todo fora de casa e ficava ansiosa para reencontrá-lo ao final de cada tarde. Ele detestava ficar sozinho e sua forma de protesto pela minha ausência era se esconder. Seu pelo macio, acinzentado era meu remédio anti-stress. Meu filhote de sagui gostava de ficar encolhidinho junto ao meu corpo, imbiocado entre o sofá e eu. Todas as noites quando eu chegava, esse era o nosso ritual.

Ele dormia na sala, num cestinho de vime, coberto por uma flanela, mas mal o dia amanhecia, ele vinha arranhar a porta do meu quarto pedindo para entrar e tirava mais um cochilo em minha cama. Em uma noite, eu cheguei mais tarde que de costume, e não consegui achá-lo. Eu não conseguia entender como ele podia ter desaparecido assim. Morávamos no sexto andar e eu tinha o cuidado de fechar portas e janelas sempre que saía. Ninguém tinha entrado lá, era um verdadeiro mistério. Mais de uma hora depois, já muito preocupada e sem saber o que pensar, entrei no banheiro e percebi um pequeno montinho sob a toalha de banho que estava estendida no porta-toalhas. Era ele. Morto de medo do escuro silencioso do apartamento, ali se refugiara.

Às vezes, Rodolfo me fazia companhia fora de casa também. Em algumas ocasiões, eu ia a pé ao centro da cidade e o levava. Ia agarradinho na minha nuca, coberto pelo meu cabelo comprido, e somente a ponta da sua cauda aparecia. Quem me olhava de costas, não entendia bem o que estava vendo. Ele me acompanhava quietinho, sem reclamar.

Alguns meses depois eu engravidei. Algumas pessoas me advertiram sobre o risco de mantê-lo em nossa companhia após o nascimento do bebê. Criado com tanto carinho, ele iria sentir ciúmes quando se visse relegado a segundo plano em nossos cuidados, e instintivamente poderia machucar a criança na disputa por nossa atenção.

Quando chegou o momento de nos separarmos dele, eu encontrei um lar substituto, e o entreguei a uma pessoa conhecida, residente em outra cidade, que o criaria com amor. Sofri, senti sua falta, mas logo me envolvi com a minha primeira filha, e com as tarefas da maternidade. O tempo passou. Cheguei a visitar Rodolfo uma vez. Estava sendo bem tratado, havia crescido e agora era adulto, grande e gordo. Eu não o teria reconhecido. Um dia, soube que ele havia morrido.

Faz mais de quarenta anos que eu adotei Rodolfo, mas mesmo tendo nos separado, eu nunca o esqueci. O primeiro mascote da minha vida adulta foi uma experiência de afeto.

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