PIRRAÇA EM FORMA DE IRMÃO

Reinando sozinho entre três mulheres e sem ter um companheiro com quem brincar, meu irmão, um ano mais novo que eu, precisava ocupar seu tempo e optou por uma atividade à qual se dedicava diariamente: pirraçar as irmãs.       Eram diversas modalidades: cortar as próprias unhas pela metade, deixando as pontas para “acariciar” a nossa pele, passar o fio dental usado e úmido em nossos lábios e chutar a mobília da casa de bonecas quando tínhamos acabado de arrumá-la para começar a brincadeira, eram as preferidas dentro de casa e sua motivação era o tédio.

          Havia, contudo, outra maneira de nos enfurecer. Essa era praticada como vingança, por ser convocado por ordem paterna para acompanhar as irmãs quando saiam para a rua. Ele odiava essa tarefa com toda a energia de sua pré-adolescência..

          Lembro-me especialmente das ocasiões em que minha irmã do meio e eu queríamos ir à “matiné”, a sessão de filme à tarde, no cinema próximo à nossa casa. Pedíamos permissão ao nosso pai, que sempre muito zeloso das filhas, exigia que meu irmão nos acompanhasse. Aborrecido por ser obrigado a algo que detestava, e ao mesmo tempo, pretendendo desestimular outras iniciativas nossas, esmerava-se em provocações para atiçar nosso desespero e nos fazer desistir.

          Para começar, ele demorava a se vestir e o tempo ia passando enquanto nós o esperávamos, de olho no relógio. Recorríamos à intervenção paterna, e após algumas ordens zangadas de nosso progenitor, ele finalmente ficava pronto. Saíamos de casa. Com o tempo contra nós –  queríamos assistir ao filme desde o início – minha irmã e eu andávamos a passos rápidos para vencer os quatro quarteirões até o cinema. Ele ia atrás, bem atrás, a passos de cágado, nos forçando a parar e a esperá-lo. A ordem de meu pai era ficarmos juntos. Reclamávamos, pedindo que ele andasse mais rápido, e de repente ele se punha em desabalada carreira, nos ultrapassava, nos obrigando a correr também para alcançá-lo. Mas isso durava apenas alguns segundos. Ele logo voltava àquele caminhar modorrento que nos levava à loucura.

           Exaustas de emoções, finalmente chegávamos. Invariavelmente, o filme já tinha começado. Antes de entrar, parávamos na lanchonete para comprar algo para mordiscar durante a sessão. Mas não havia chance de escolher o que queríamos. O dinheiro ficava com ele, que comprava sempre a mesma coisa: uma caixa de “MENTEX”. Eram pastilhas mastigáveis de menta, muito vendidas naquela época. Não adiantava pedir outra coisa ou algo para beber. Não adiantava reclamar. Como detentor do poder financeiro, era ele quem decidia. Entrávamos na sala de projeção já às escuras, um olho na tela que exibia a fita em andamento, outro olho no chão, tentando não tropeçar nos degraus, procurando três lugares juntos que estivessem vazios.

          Sentávamos juntos. Ele no meio, com uma de nós de cada lado. Depois de algum tempo, ele abria a caixa de MENTEX que mantinha em seu poder e entregava uma pastilha a cada uma de nós. Quando estendíamos a mão para pedir mais, ouvíamos dele:

          – Agora não, eu ainda não acabei a minha.

          E assim seguíamos, torturadas, pastilha a pastilha, sempre depois dele, até acabarem o filme, as pastilhas e a nossa paciência.

          Enquanto escrevo isso, me flagro rindo sozinha. São lembranças doces, apesar do amargor que sentíamos naquele tempo. Hoje nos provocam boas risadas sempre que nos reunimos para relembrar velhas histórias. Apesar de tudo, nunca desistimos de querer ir ao cinema e ele nunca foi dispensado de nos acompanhar, até que ficássemos adultos. O Amor que aprendemos em casa, com nossos pais, sempre foi a cola que nos manteve unidos até agora.

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