O URSO POLAR

Eu estava viajando em um voo noturno para um lugar com temperaturas muito baixas. Vivo num lugar quente e costumo ser muito sensível ao frio, então fui preparada: meias grossas, calça e blusa térmicas, gorro e luvas. Para completar o visual, eu tinha comprado um casaco simplesmente lindo, pensando em inaugurá-lo naquela viagem. Era cor de pérola, cheio de pelinhos sintéticos bem delicados e muito macios, daqueles que dá vontade de ficar passando a mão. Usando parte dessa vestimenta, entrei no avião, localizei minha poltrona no corredor e me sentei.

O avião foi se enchendo de gente e logo chegou o passageiro da poltrona junto à minha. Era um rapaz jovem, alto, com o corpo muito volumoso, que ocupou parte do lugar onde eu estava sentada. Ele simplesmente não cabia na cadeira dele. Vestia um conjunto de moletom preto e seus braços e pernas se “derramavam” para o meu lado enquanto ele dormia. A viagem era longa e eu fiquei bastante incomodada, mas não havia nada a fazer. O avião estava lotado, não havia outro assento vazio para mim. O que me restava era me encolher na poltrona e tentar dormir também.

Um pouco mais tarde, comecei a sentir muito frio. O ar condicionado da aeronave parecia estar no máximo. Tirei da mochila o meu casaco novo, embalado com cuidado em uma sacola plástica, e feliz por tê-lo levado, eu me agasalhei. Aquecida, eu consegui dormir. O dia estava amanhecendo quando o avião se aproximou do destino. As luzes se acenderam e eu, ainda sonolenta, me levantei para ir ao banheiro. Ao retornar ao meu assento, olhei para meu companheiro do lado e me deparei com uma cena digna de um quadro impressionista. O lado esquerdo do seu conjunto de moletom preto, do ombro ao tornozelo, estava completamente coberto por pelos do meu casaco cor de pérola, formando uma imagem bizarra: parecia um urso polar de uma subespécie exótica. Para meu alívio, o pobre rapaz, inocentemente alheio ao seu novo e psicodélico “look”, dormia placidamente. Eu o observava incrédula. Metade do meu casaco estava assentado naquele rapaz.

Eu fiquei dividida. Embora eu me compadecesse daquela situação, precisei de muito esforço para conter um ataque de riso: a cena era hilária. A seguir, veio a preocupação: quando esse rapaz acordar e perceber o que lhe aconteceu, ele não vai gostar nem um pouco! Não posso negar, eu fugi. Fui uma das primeiras a sair do avião, e saí sem olhar para trás! Não sei o que aconteceu depois, mas espero que ele tenha conseguido se livrar daqueles lindos pelinhos cor de pérola.

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