Selma e Jorge adormeciam juntos todas as noites, em frente à televisão ligada. A rotina era puxada para ambos. Ele trabalhava muito e voltava tarde para casa. Ela ia para a faculdade pela manhã, e à tarde, cuidava da casa e das três crianças pequenas. Não era fácil! Depois do jantar e do ritual de acomodação dos filhos na cama, até tentavam relaxar vendo um filme ou uma novela na televisão, da sala, mas logo começavam a escorregar do sofá para os almofadões no tapete e em alguns minutos apagavam nos braços de Morfeu. Só levantavam bem mais tarde, olhavam as crianças e iam para a cama.
Aquela noite iria ser diferente.
Eles ainda estavam na sala, grudados no sono. Era quase meia-noite quando foram despertados bruscamente por um barulho ensurdecedor. Puseram-se de pé de imediato, ambos com o coração aos pulos. Não conseguiam identificar de onde vinham aqueles estrondos que continuavam ribombando. Parecia que o mundo estava vindo abaixo ou que o prédio estava desabando.
— Os meninos! – gritaram em coro, um para o outro.
Selma e Jorge precisavam proteger os filhos daquela ameaça, fosse o que fosse! Por instinto, e em tácito entendimento, correram ao quarto onde as crianças dormiam, alheias ao perigo iminente. Jorge pegou ao colo a menina de três anos, Selma pegou o bebê de um ano, os dois em sono profundo, a despeito do barulho. Acordaram às pressas a maiorzinha, de cinco anos, que empurrada por Jorge, saiu cambaleando pelo corredor, rumo à porta de saída do apartamento térreo em que moravam, sem entender coisa alguma. Tinham que sair dali rapidamente. O assustado cortejo chegou ao playground para escapar daquela situação aflitiva.
Mas o que viram à frente foi algo surpreendente. Enquanto o barulho diminuía até cessar por completo, atônitos, se depararam com o vigia do turno da noite, assobiando e passeando tranquilamente pelo playground, com as mãos para trás, sem demonstrar qualquer preocupação. Ele interrompeu sua caminhada ao ver aquele clã peculiar, uns sonolentos, outros assustados, e tentou disfarçar, sem sucesso, um arzinho de riso.
— Que barulho foi esse? – perguntou Jorge, com a voz alterada.
— O que foi isso? – Selma perguntou, ainda com taquicardia.
— Foi o show de Roberto Carlos aí no estádio, terminou agora – explicou o vigilante – o pessoal soltou fogos.
O prédio ficava num descampado, e o barulho dos fogos após o show, no estádio de futebol bem próximo, amplificou-se no espaço vazio como em uma caixa de ressonância. Justiça seja feita ao Rei, era merecedor de todos aqueles aplausos.
Desconcertados. A palavra não dá conta de representar os sentimentos de Selma e Jorge, enquanto olhavam,embasbacados para o vigilante. E entre os murmúrios e protestos desorientados da filha mais velha, foram conduzindo de volta seus filhinhos, são e salvos, às suas camas.
