DE CAMAROTE

Em geral, consideramos que um camarote é o melhor lugar para assistir a eventos diversos, a exemplo dos festejos do Carnaval. Se pudermos, pagaremos um ingresso mais caro e disputaremos uma vaga neste lugar. Efetivamente, um camarote nos propicia uma posição privilegiada. Além de nos sentirmos mais seguros, estando em um lugar mais alto, podemos apreciar a festa de outro ponto de vista e isso muda a experiência. Este texto, porém, não é sobre o Carnaval.

Somos seres multidimensionais. Corpo, mente e alma funcionando como um todo integrado. Aprendemos que a mente é o centro de controle das nossas ações, manifestadas no nosso aparato corporal: falar, agir, abster-se, silenciar…  Se focamos nossa maior atenção na aparência do corpo e nos identificamos plenamente com ele, nos reconhecemos predominantemente por nossa aparência física. Então nos escravizamos à instância material e nos esforçamos para alcançar e manter padrões de beleza ou de força vigentes em nossa sociedade. Numa postura hedonística, nos propomos saborear todo o prazer que conseguimos obter através dos nossos sentidos.  Então investimos o máximo de nossa energia em preservar algo que é perecível, e que a despeito de todos os esforços, um dia irá se extinguir.

Se nos identificamos com a nossa mente, a sede dos nossos pensamentos e emoções, nos sentimos no controle de nós mesmos e vemos o nosso corpo como uma ferramenta para nos movermos nesse mundo, através da vontade, da autodeterminação. Contudo, muitas vezes, diante de uma tempestade emocional, o nosso poder de autorregulação se enfraquece e nos sentimos desamparados. A nossa mente racional falha em sua função analítica e se revela incapaz de restabelecer nosso equilíbrio e nossa serenidade.

Há um lugar mais seguro para estarmos. Há um “camarote” para enxergarmos com clareza, com lucidez. Não somos nosso corpo, não somos nossa mente. Podemos nos identificar com nosso Eu Superior, que se “situa fora e acima” da nossa mente e do nosso corpo e nos postarmos na posição de Observador. Na verdade, o Eu Superior é a essência de quem somos.  E sendo nosso Eu Superior, nós podemos observar como o corpo age, as impressões sensoriais que dele recebemos, bem como as emoções e pensamentos que agitam a nossa mente, sem julgá-los, sem resistir a eles, simplesmente aceitando-os pelo que são.

Conseguimos então perceber que o que nos aflige é uma reação temporária ao que nos acontece, uma avaliação produzida pela nossa mente sobre a situação que estamos vivendo. É uma interpretação subjetiva da realidade, filtrada pelo viés das crenças que desenvolvemos ao longo da vida, a partir de nossas experiências. Essa interpretação nos afeta e pode nos adoecer ou nos fazer vibrar. A ansiedade, o medo, a desesperança, a raiva, a alegria, o amor e muitos outros estados emocionais são o que sentimos em um instante, reagindo a uma dada vivência, que muitas vezes evoca acontecimentos anteriores da nossa história.

Em seu livro O Poder do Agora, Eckhart Tolle ressalta a importância e os efeitos dessa postura sobre a nossa paz interior. Observando essas reações em nós, de um lugar privilegiado onde verdadeiramente “somos”, conseguimos um distanciamento daquele turbilhão em que a mente está envolvida e compreendemos a temporalidade de nossas reações. Isso nos conforta e nos acalma, e nos faz sentir que estamos de algum modo protegidos, porque o nosso Eu Superior está livre dessas influências, comuns em nossa vida humana, temporal.

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