Eram três crianças, duas meninas e um menino. E o tempo era curto. Para adiantar as tarefas, eu tentava atendê-las ao mesmo tempo, como se eu fosse um daqueles modernos aparelhos eletrônicos “três em um”. No banho era mais fácil. Eu vestia uma roupa de usar em casa, daquelas bem velhas – fatalmente iria me molhar – e levava minha manada infantil para dentro do banheiro. Depois de despidos os pequenos, eu enfiava a todos debaixo do chuveiro morno, que espanando água em meio à algazarra geral, já ia molhando todo mundo de uma vez só. Isso facilitava meu trabalho de ensaboar, passar xampu, etcétera. A maiorzinha tentava me ajudar, mas eu preferia fazer tudo sozinha, afinal era banho de faxina, tinha que sair bem-feito.
A empreitada já ia a meio, quando aconteceu: o chuveiro elétrico começou a pipocar e a vomitar fogo, como se fosse um pequeno vulcão de ponta-cabeça. As crianças começaram a gritar, e eu também. Precisávamos sair dali, antes que o fogo piorasse. Comecei a tentar abrir a porta de acrílico do boxe, empurrando-o com uma das mãos, cheia de espuma de sabão, enquanto com a outra, também ensaboada, tentava arrebanhar as crianças em pânico para perto de mim. A porta deslizava e os meninos também. Não dava tempo de enxaguar. Quando finalmente consegui fazer a porta correr e abrir, empurrei meus filhinhos para fora, aos gritos de “corram, saiam daqui”. Mas àquela altura, minhas mãos e minhas crianças eram puro sabão, o chão idem. Duas caíram pelo caminho, e eu também escorreguei.
Aos trancos, conseguimos sair do banheiro. Enrolei as crianças em toalhas e elas foram se refugiar no sofá da sala, molhadas como estavam. Corri a desligar o disjuntor da cozinha, confirmei que o vulcão estava extinto e fui acalmá-las. A partir daquele dia, instituí por decreto a moda do banho frio, o que foi motivo de protestos veementes por um bom tempo.
