Uma das recordações pungentes da minha infância tem como cenário a casa do meu avô, numa cidade vizinha. Foi onde vivi grande parte das minhas experiências de criança, e onde eu estava em quase todos os domingos, férias e feriados.
Além de meus avós e de uma profusão de membros de minha família biológica, morava naquela casa imensa, uma avó do coração que se chamava Raimunda. Ela havia cuidado do meu avô quando menino e o acompanhou quando ele constituiu família. Meus irmãos e eu não conseguíamos pronunciar direito o seu nome e a chamávamos carinhosamente de Mune.
Sua imagem está bem viva em minha memória: uma velhinha pequena, que andava curvada porque tinha uma deformidade nas costas e que cozinhava o feijão mais gostoso do mundo. Ela tinha um rosto doce e um coração generoso, e éramos todos apaixonados por ela.
Um dia, nossa querida Mune decidiu nos presentear. Naquela época, muitas crianças empinavam pipas naquela rua larga e sossegada da casa do meu avô. Ela separou uma parte de suas parcas economias e pediu a um rapaz conhecido para fabricar pipas bem bonitas, para mim e para meus irmãos. Lembro-me da minha, era vistosa, amarela, com uma grande cauda enfeitada com papéis de seda coloridos.
Fomos imediatamente para a rua, segurando orgulhosos as nossas pipas, nos preparando para correr ao sabor do vento, para que elas subissem bem alto. Mas bem no início da brincadeira, um menino maior que não conhecíamos, surgiu de repente, e aparentemente sem motivo, interceptou o voo das nossas pipas, puxando-as para baixo, e em segundos, rasgou uma após a outra, fazendo-as em pedaços e destruindo a nossa diversão. Nada pudemos fazer para impedi-lo, ele era bem maior que nós. Chorei muito, inconformada, e voltei para dentro para dar a triste notícia à nossa avozinha do coração.
Ficamos desolados. Ela tentou nos confortar, a mim e aos meus irmãos, que sendo crianças menores, logo se distraíram com outras coisas. Mas o episódio me fez sofrer intensamente e nunca me saiu da cabeça. Sofri não só pela pipa perdida, o que mais me doeu foi ver que o sacrifício do dinheirinho suado de Mune foi reduzido a farrapos inúteis de papel de seda e palitos de madeira, sem atingir o objetivo que ela tinha em mente: nos proporcionar alegria. Num pequeno espaço de tempo, eu pude experimentar o amoroso cuidado de uma pessoa significativa e a ânsia destruidora e desgovernada de outro ser humano.
Mune não está mais entre nós. Ela viveu cento e onze anos, praticamente lúcida até o final. Eu já era adulta quando ela se foi, e o tempo que convivemos gravou em mim, de forma indelével, a ternura que ela representou em nossas vidas. A lembrança daquela pipa amarela permanece como um emblema de seu enorme carinho por nós.

