A FAVELA

Uma das experiências inesquecíveis da minha vida aconteceu numa favela, onde uma amiga e eu fazíamos um trabalho voluntário, levando alimentos, remédios e objetos doados para várias famílias carentes. Chovia muito e naquele dia, eu teria que ir dirigindo. A minha parceira das visitas semanais que costumava me dar carona, tinha um compromisso e não podia me acompanhar. Acomodei as doações na mala do meu carro, dividindo-os em pacotes para cada família e rumei para a favela. Era uma rua descalça, bem comprida e muito estreita, com barracos construídos aleatoriamente às margens do rio.

            Encontrei um intervalo entre os barracos do lado do rio e estacionei meu Corcel II, longe da borda enladeirada da margem, mais para o meio daquela rua. Tive medo de me aproximar demais da beirada e deslizar naquele declive enlameado, caindo na água. Saltei do carro em meio à lama e abri o bagageiro. Alguns moradores, já meus conhecidos, foram se aproximando para receber os mantimentos. As crianças pulavam ao meu redor na expectativa de ganhar os biscoitos que nós costumávamos levar.

 Feitas as entregas, tranquei o carro e fui visitar o barraco de Dona Diná. Era uma idosa muito querida, a quem eu havia prometido uma pomada para as dores de reumatismo. Eu gostava de conversar com ela, uma senhorinha alegre e amigável que morava sozinha. Passamos algum tempo conversando e de repente, uma movimentação do lado de fora chamou a nossa atenção. Um ronco forte do motor de um carro acompanhado de um alarido de reclamações indicavam que alguma coisa fora do comum estava acontecendo ali.

Fui para a entrada do barraco e olhei para fora. Um ônibus estava parado, bastante inclinado de lado, atolado na valeta de esgoto a céu aberto que seguia por toda a extensão da rua. O motorista tentava em vão sair do buraco, forçando o motor que roncava, mas as rodas derrapavam na lama e o ônibus não conseguia sair do atoleiro. Demorei um pouco para entender o que tinha acontecido e para constatar, consternada, que aquele infortúnio tinha a ver comigo. Como eu tinha estacionado num lugar inconveniente, “no meio da rua”, como gritavam alguns, me olhando de cara feia, o motorista do ônibus tentou desviar do meu carro e acabou caindo na valeta. Ele não conseguiria sair de lá até que fosse rebocado. A via estava interditada.

            Os passageiros que tiveram que sair do ônibus antes de completarem o trajeto, junto com outros moradores da favela que foram atraídos pelo barulho, formavam uma massa humana que protestava. Todos demonstravam aborrecimento nas feições contraídas, e alguns emitiam imprecações e xingamentos. Tanta revolta era compreensível. Aquela linha de ônibus, que servia aos moradores e visitantes duas vezes por dia, era o único meio pelo qual os moradores se deslocavam entre a favela e outros pontos da cidade. Um veículo ia e outro vinha, em horários diferentes, porque a largura da longa rua sem retorno não permitia que veículos grandes se cruzassem. O bloqueio da rua significava que nenhum outro ônibus poderia passar por ali, enquanto aquele não fosse retirado. Os moradores estavam impossibilitados de se deslocar.

 A tarefa de rebocar aquele veículo pesado da vala funda onde estava preso, não seria uma tarefa fácil, nem rápida. Mortificada, sob os olhares acusatórios daquela pequena multidão, eu me despedi rapidamente de Dona Diná, entrei no meu carro com o corpo tremendo e tratei de sair dali o mais rápido possível, com o coração aos pinotes. Soube depois, que o tráfego da favela só foi restabelecido mais de vinte e quatro horas após o ocorrido.

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