Na minha caminhada diária, passo sempre pela porta do prédio. Incrivelmente, após tantos anos, ele continua da mesma cor, amarelo-claro. As únicas coisas diferentes na fachada são janelas de vidro substituindo as antigas, em madeira, e a grade que colocaram no portão de entrada.
É o mesmo edifício, apesar das mudanças radicais em seu entorno. A rua, antes descalça, tornou-se calçada, e posteriormente foi asfaltada, com sinalização para passagem de pedestres. O que era a margem irregular do rio, onde se jogava lixo, que frequentemente servia de banquete para urubus, hoje é uma borda pavimentada e pintada, com ciclovia, grades de proteção, bancos e conjuntos de aparelhos para exercícios, além de uma praça de alimentação. Em alguns trechos, a avenida tem parque infantil com brinquedos coloridos, espaço para pets, pista de skate e um campinho de futebol cercado de telas. Tudo isso, circundado pelo verde da grama e de grandes árvores, compõe um cenário mais que aprazível para quem passa por aqui, caminhando ou correndo. Mas o prédio, o meu prédio, continua o mesmo.
É o lugar onde morei entre os três e os seis anos. Foi lá onde brotaram pensamentos que me trouxeram maior consciência de mim mesma, onde construí minhas lembranças mais remotas e uma melhor compreensão do mundo ao meu redor. Três andares, dois apartamentos em cada, e mais um nível onde ficava um pequeno terraço que todos utilizavam para lavar e estender roupas. O meu era um apartamento de fundo no segundo andar, e eu vivia na janela espiando a rua lá embaixo.
Foi lá que eu ganhei de Natal uma boneca Andinha, da Estrela, que conservo ainda hoje. Tinha quase o meu tamanho e constituiu uma extravagância financeira para meus pais, na vida modesta que vivíamos. Foi lá que, junto com Fabinho, o meu primeiro melhor amigo, eu me diverti muitas vezes usando a escada do terraço como tobogã. Era em cimento vermelho e com degraus pouco definidos, e nós vestíamos calças grossas e escorregávamos vezes sem conta. Quase todos os dias, jogávamos Futebol de Prego usando uma moedinha para marcar os gols.
Às vezes, meu pai me mandava comprar pão e manteiga na mercearia de Seu Zezinho, um estabelecimento minúsculo na esquina, junto com meu irmãozinho, e enquanto seguíamos de mãos dadas, ele ficava nos vigiando da janela. A manteiga era pesada e embalada num papel pardo bem grosso, num pequeno embrulho amarrado com cordão, que levávamos com cuidado extremo para casa, onde meu pai conferia o troco e nos ensinava o valor do dinheiro. Não preciso me esforçar para “ver” a menininha que eu fui, sentada num degrau na entrada do prédio, correndo para dentro, assustada, quando via um policial se aproximando, ao som da advertência maliciosa da babá: “Cuidado, lá vem a polícia!”.
Considero um grande privilégio morar num lugar onde posso, com frequência, rever o ambiente onde vivi minha infância e perceber que minha história continua aqui, ao alcance dos meus olhos e da minha memória!

