ENTRE BEIJOS E ALFINETES

Todos nós guardamos algumas cenas da infância, que a nossa memória, vez por outra,
vai buscar em nosso baú de lembranças. E então, elas emergem de forma tão vívida
como se estivessem acontecendo no agora. Elas nos reconectam com nossa história e
nos lembram de quem somos e de onde viemos. Algumas vezes nos vêm recordações
doces, em outras, revivemos momentos amargos ou agridoces. Todos eles marcaram
nossa jornada e compõem nosso repertório de vida.

Lembrei-me hoje, com grande nitidez, de experiências que se repetiam de quando em
quando. Minha querida mãe queria ser costureira. Queria fazer, ela mesma, nossas
roupinhas. Isso implicava em nos chamar para dentro de casa bem na hora em que a
brincadeira estava no melhor momento – sempre era o caso, não sei explicar como ela
adivinhava – para provar os modelitos, antes de aprontá-los definitivamente.

Ela me tirava da folia com os amiguinhos em nossa rua, e eu já entrava em casa
contrariada, pressentindo o que iria acontecer em seguida. Ela tirava a roupa que eu
vestia no momento e me mandava fechar os olhos para não ver o traje que ela estava
fazendo, e que seria, provavelmente, a minha roupa nova do próximo domingo. Sim,
minha mãe era a rainha das surpresas, e para ela, fazer surpresa do que quer que
fosse, aumentava o encantamento da coisa. Devo admitir que ela tinha razão. Meus
olhos fechados, ela começava a colocar sobre meu corpo os moldes recortados em
papel pardo, que ela comprava especialmente para esse fim. Como ela estava
aprendendo, não tinha ainda desenvolvido habilidade suficiente para a arte da costura
e precisava fazer isso muitas vezes. Ajustava daqui e ajustava dali, antes de cortar o
molde no tecido. Seguiam-se outras fases de experimentação, e novas interrupções
nas minhas brincadeiras de esconde-esconde ou pega-pega. Eu retornava pesarosa e
resignada. Para prender todos aqueles pedaços de papel ou tecido recortados em
mim, era necessário colocar alfinetes, muitos alfinetes. Eu precisava ficar parada,
absolutamente imóvel durante todo o processo, assustada com a ideia de ter a pele
espetada, e com a possibilidade de ter que recomeçar tudo, se os moldes saíssem do
lugar.

Para os meus seis anos de idade, era muito difícil me expor àquela tortura, posar de
estátua por um tempo que me parecia infinito, logo eu, elétrica, como sempre fui e
ainda sou. As ferroadas finas dos alfinetes eram inevitáveis, e eu gritava a cada vez.

Enquanto isso, minha mãe, sempre carinhosa, me consolava com beijinhos e com
palavras de conforto: “está acabando, filhinha”. Mas não acabava nunca, era o que me
parecia. Ouvir a algazarra dos meus amigos lá fora aumentava a minha impaciência e
diminuía o meu entusiasmo sobre a tal roupa nova.

Muitas sessões depois, a roupa ficava pronta. E antes de inaugurá-la, eu precisava
fechar os olhos. Minha mãe me ajudava a vesti-la e depois me encaminhava ao
espelho. “Pode abrir os olhos”, ela dizia. Em uma dessas vezes, que para mim tinha
sido especialmente penosa, o espelho me devolveu uma imagem que me emociona
até hoje: um conjunto de calças e blusa em um tom de laranja muito vivo, com
detalhes em branco, nos bolsos e nas barras, além do seu rosto, radiante de alegria por
ter conseguido fazer para mim aquela roupa tão bonita! Era realmente um traje
vistoso, com o qual desfilei orgulhosamente no passeio daquele domingo.

Oh, minha mãe, que saudade de você e dos seus alfinetes!

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